martes, 4 de mayo de 2010

Interpretação do filme "Celda 211"

Antes de tudo gostaria de expor a minha satisfação em assistir a um filme que quebra com a dicotomia do "bem" e "mal", do "bandido" e "mocinho" a que tanto estamos acostumados do cinema americano ou das novelas nacionais.

Este filme mostra que a depender do contexto, das circunstâncias de determinada situação, podemos nos transformar e, principalmente, mudar a visão daquilo que cremos ser a nossa realidade, sobretudo quando nos encontramos expostos a situações extremas, onde, necessariamente, afloram, em alto grau, os nossos instintos de sobrevivência

Este é o caso do protagonista, Juan Oliver, que, durante uma rebelião no presídio onde iniciaria suas atividades como carcereiro, tem que se passar por mais um dos presos do pavilhão especial, para garantir a sua sobrevivência, ou seja, é o velho caso da pessoa errada no lugar errado... Em meio a momentos de muita tensão e violência observamos as modificações que são "impostas" a Juan pelo ambiente no qual ele encontra-se exposto e, que, para manter-se vivo e conseguir sair daquela situação de refém-não-refém, acaba colaborando com os criminosos em suas estratégias (a utilização de prisioneiros políticos do ETA, os "intocáveis", como moeda de negociação) e também nas reivindicações, dentre estas, o fim do FIES, que vem a ser um tipo de controle, extremamente rígido, estabelecido no sistema penitenciário espanhol, aplicado a categorias de prisioneiros especiais, onde sua comunicação interna ou externa é duramente monitorada e limitada, além de outras medidas bastante severas. O FIES vem a ser o que eles chamam de "uma cadeia dentro da cadeia".

Em meio à luta do protagonista pela sua sobrevivência, onde descamba na sua transformação, também, num assassino (como seus pares recém formados), vemos, pelo outro lado, o emaranhado burocrático e os acordos políticos, além da corrupção que envolve o sistema prisional espanhol, onde fica bastante explícita a redoma que foi colocada em torno dos prisioneiros/reféns do ETA, demonstrando a preocupação do governo e dos agentes públicos em preservar mais a vida destes do que do próprio “colega de farda” (também um agente público) e, aí é que chegamos ao ponto que para mim foi um dos fundamentais para o brilhantismo da trama, que foi o rompimento com os estereótipos de mocinho-bonzinho e de vilão-malvado/perverso, pois em determinados momentos fica bastante evidente a intenção do autor neste caminho, mais próximo da realidade. Nota-se grandemente este propósito no contraponto preciso entre a cena inicial, onde o Juan é deixado/abandonado na cela pelos seus futuros colegas, com a cena final, onde o líder da rebelião, Malamadre, apesar de assassino e altamente perigoso, demonstra muito mais consideração e respeito, através da lealdade e do companheirismo a Juan (mesmo com sua farsa já desmascarada), quando este é alvejado, no momento da invasão ao presídio, sem que ele o abandone em momento algum.
O mais interessante é que são esses valores que acabam saltando aos olhos no filme, além da noção de que o “bem” e o “mal” são bastante relativos, dependendo muito aí da perspectiva e do contexto aos quais eles estejam inseridos. A violência, inerente a este tipo de história, acaba por ficar em segundo plano.

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