A Perna de Pau (José de Espronceda)
Vou contar o acontecimento mais espantoso e maravilhoso que tanto pode ser imaginado, caso que vai eriçar os cabelos, arrepiar as carnes, entorpecer a mente e você vai passar de geração em geração a sua fama com a desgraça eterna do infeliz que compartilha tão mal e infeliz destino. Oh mancos! Aprenda uma lição na perna de fora e leia atentamente a história desta, que é tão verdadeira quanto lamentável; falo com você, e melhor dizer a todos, pois não há ninguém no mundo, onde não há falta de pernas, que não estão expostos a perdê-las.
Uma vez em Londres viviam, há menos de 50 anos, um comerciante e um arquiteto de pernas de pau, ambos famosos: o primeiro, por suas riquezas, e o segundo, por sua rara habilidade em seu ofício. E basta dizer que era tal que mesmo os pés mais ágeis e leves invejavam as que ele fez de madeira, a ponto de haver moda de ter pernas de pau, com grave prejuízo para a natureza. Acertou neste tempo nosso comerciante a quebrar uma das suas, com tal perfeição, que os cirurgiões não tiveram outro remédio a mais que cortá-la, e embora a dor da operação quase o matasse, após ter se encontrado sem uma perna, nunca parou de se alegrar ao pensar no arquiteto que com uma pau teria de livrar para sempre de tais percalços. Mandou chamar Mr. Wood quando (esse era o nome do grande mestre da perna), e como costuma dizer, não se cabia de tanta ansiedade, imaginando-se já com a sua perna bem ajustada e milagrosa, que, apesar de homem doente, gordo e mais de quarenta anos, o desejo de experimentar em si mesmo a habilidade do artesão, o deixava fora de si.
Não esperou muito tempo, foi o rico comerciante e desfrutou de uma reputação de generosidade.
- Mr. Wood – disse – felizmente preciso de sua habilidade
- Minhas pernas – falou Wood – estão a disposição de quem queira servir-se delas.
- Muito obrigado, mas não são as suas pernas, mas uma de pau que preciso.
- As desse gênero eu lhe ofereço – respondeu o arquiteto – que as minhas, embora seja de carne e osso, não param de me faltar.
- Por certo que é raro para um homem como o senhor, que sabe fazer as pernas, que não tenha mais que pedir, todavia use as mesmas com que nasceu.
- Sobre isto, há muito que dizer, mas indo direto ao assunto: o senhor necessita de uma perna de pau, não é isso?
- Perfeitamente - disse o abastado comerciante - mas você não vá o senhor pensar que se trata de uma coisa qualquer, simplesmente é preciso que seja uma obra-prima, um milagre da arte.
- Um milagre da arte, eh! – repetiu o Sr. Wood.
- Sim, senhor, uma perna maravilhosa, custe o que custar.
- Estou compreendendo, uma perna que supra em tudo a que o senhor perdeu.
- Não, senhor, ela deve ser melhor ainda.
- Está bem.
- Que se encaixe bem, que não pese nada, nem que eu tenha que levá-la, somente que ela me leve.
- O senhor será atendido.
- Em uma palavra, eu quero uma perna..., vejamos, já que estou em estado de elegia, uma perna que ande sozinha.
- Como queira.
- Então o senhor já está inteirado.
- Dentro de dois dias - respondeu o perneiro – o senhor terá sua perna em casa, e prometo-lhe que o senhor ficará agradecido. Dito isto, se despediram. E o comerciante ficou entregue a mil saborosas e lisonjeiras esperanças, pensando que dali a três dias estaria provido da melhor perna de pau que haveria em todo o reino unido da Grã Bretanha. Enquanto isso, nosso engenhoso artífice se ocupava já na construção de sua máquina com tanto empenho e acerto, que dali a três dias, como havia prometido, estaria acabada a sua obra, muito satisfeito de seu o seu avanço.
Era uma manhã de maio e começava a raiar o dia feliz em que haveria de se cumprir as mágicas ilusões do comerciante sem perna, que jazia na cama muito alheio à desventura que lhe aguardava. Faltou-lhe mais tempo para colocar a perna emprestada, e a cada golpe que soava à porta da casa, retumbava em seu coração. "Esse vai ser", dizia a si mesmo, mas em vão; porque antes de sua perna chegaram à leiteira, o carteiro, o açougueiro, um amigo e milhares de outros personagens insignificantes, crescendo por instantes a impaciência e ansiedade do nosso herói, bem como aquele que está à espera de um traje novo para ir a um encontro romântico e tem uma nomeação para um mentiroso alfaiate. Mas o nosso artífice cumpria bem suas palavras, e Oxalá que não tivesse cumprido! Chamaram, enfim, à porta, e logo em instantes entrou nom quarto do comerciante um funcionário da loja com uma perna de pau em mãos, que parecia querer escapar.
- Graças a Deus - exclamou o banqueiro – vejamos essa maravilha do mundo.
- Aqui está - disse o funcionário - e creia o senhor que melhor perna, meu patrão, jamais fiz em sua vida.
- Agora veremos.
Profesor,
ResponderEliminarPeço desculpas pelo atraso na postagem da tradução. Como não pude ir na última aula soube deste exercício apenas na terça feira 29/06/2010 e também esta tradução deu mais trabalho do que eu imaginei.