lunes, 12 de julio de 2010

A Perna de pau

José de Espronceda

Vou contar o caso mais espantoso e maravilhoso que se pode imaginar, um caso que vai ouriçar os cabelos, arrepiar as carnes, entorpecer a mente e você vai passar de geração em geração a sua fama com a desgraça eterna do infeliz que compartilha tão mal e infeliz destino. Oh mancos! Aprendam com a perna alheia e leiam com atenção esta história, que tem tanto de certa como de lastimosa; falo com você, e melhor dizer a todos, pois não há no mundo ninguém, que não precise de pernas, que não esteja expostos a perdê-las.

Em Londres viviam, na metade do século, um comerciante e um fabricante de pernas de pau, ambos famosos: o primeiro, por suas riquezas, e o segundo, por sua rara habilidade em seu ofício. E basta dizer que este era o tal, que mesmo as pernas mais ágeis e ligeiras invejavam as que ele fazia de madeira, a ponto de haver moda de ter pernas de pau, com grave prejuízo para as naturais. Acertou neste tempo nosso comerciante a quebrar uma das suas, com tal perfeição, que os cirurgiões não tiveram outro remédio a mais que cortá-la, e embora a dor da operação quase o matasse, logo que se encontrou sem perna, não deixou de se alegrar ao pensar no artífice, que com uma de pau haveria de livra-lo para sempre de tais percalços. Mandou chamar Mr. Wood quando (esse era o nome do grande mestre da perna), e como costuma dizer, não se cabia de tanta ansiedade, imaginando-se já com a sua bem arranjada e prodigiosa perna, que, apesar de homem doente, gordo e mais de quarenta anos, o desejo de experimentar em si mesmo a habilidade do artífice, o deixava fora de si.

Não foi preciso esperar muito tempo, porque era um comerciante rico e gozava renome de generoso.

- Mr. Wood – disse – felizmente necessito de sua habilidade.

- Minhas pernas – falou Wood – , estão à disposição de quem queira servir-se delas.

- Muito obrigado; mas não são as suas pernas, mas uma de pau que necessito.

- As desse gênero eu lhe ofereço – respondeu o artífice – que as minhas, embora sejam de carne e osso, não deixam de me fazer falta.

- Por certo que é raro que um homem como o senhor, que sabe fazer pernas, que não tenha mais que pedir, use todavia as mesmas com que nasceu.

- Sobre isso há muito que falar, mas indo direto ao assunto: o senhor necessita de uma perna de pau, não é isso?

- Perfeitamente - respondeu o abastado comerciante - mas não vá o senhor pensar que se trata de uma coisa qualquer, é necessario que seja uma obra-prima, um milagre da arte.

- Um milagre da arte, eh! – repetiu o Sr. Wood.

- Sim, senhor, uma perna maravilhosa, custe o que custar.

- Estou compreendendo, uma perna que supra em tudo a que o senhor perdeu.

- Não, senhor, é preciso que seja melhor ainda.

- Está bem.

- Que encaixe bem, que não pese nada, que eu não tenha que levá-la, mas que ela me leve.

- O senhor será atendido.

- Em uma palavra, quero uma perna..., já que estou na posição de escolher, uma perna que ande sozinha.

- Como queira.

- Então você já está ciente.

- Daqui a dois dias - respondeu o perneiro – o senhor terá sua perna em casa, e prometo-lhe que o senhor ficará satisfeito. Dito isto se despediram. E o comerciante ficou entregue a otimistas esperanças, pensando que dali a três dias estaria provido da melhor perna de pau que haveria em todo o reino unido da Grã Bretanha. Enquanto isso, nosso engenhoso artífice se ocupava já na construção de sua máquina com tanto empenho e acerto, que dali a três dias, como havia prometido, estaria acabada a sua obra, satisfeito sobremaneira de sua adiantada inteligência.

Era uma manhã de maio e começava a raiar o dia feliz em que haveria de se cumprir as mágicas ilusões do comerciante sem perna, que jazia na cama muito alheio à desventura que lhe aguardava. Faltou-lhe mais tempo para colocar a perna emprestada, e a cada golpe que soava à porta da casa, retumbava em seu coração. "Esse será", dizia a si mesmo, mas em vão; porque antes de sua perna, chegaram a leiteira, o carteiro, o açougueiro, um amigo e outras mil pessoas insignificantes, crescendo por instantes a impaciência e ansiedade do nosso herói, bem assim como o que espera um traje novo para ir a um encontro amoroso e tem um alfaiate mentiroso. Mas o nosso artífice cumpria melhor suas palavras, e oxalá que não tivesse cumprido! Chamaram, enfim, à porta, e logo em instantes entrou no quarto do comerciante um funcionário da loja com uma perna de pau na mão, que parecia querer escapar.

- Graças a Deus - exclamou o banqueiro – , vejamos essa maravilha do mundo.

- Aqui está - disse o funcionário - e creia o senhor que melhor perna jamais fez meu patrão em sua vida.

- Agora veremos.

E, endireitando-se na cama, pediu para vestir e logo que trocou a roupa íntima, mandou o funcionário aproximar-se com a perna de pau para experimentar. Mas aqui começa a parte mais lastimosa. Nem bem a colocou e ficou de pé, quando, sem que força humana fosse bastante para detê-la, a perna começou a andar por si só, com tal segurança e rapidez, tão prodigiosa, que, para seu desgosto, teve que segui-la o corpo obeso do comerciante. Em vão foram os gritos que este dava chamando seus empregados para detê-la. Desgraçadamente, a porta estava aberta, e quando eles chegaram, lá estava o pobre homem na rua. Logo que se viu nela, foi impossível conter seu ímpeto. Não andava, voava; parecia que estava arrebatado por um redemoinho, que estava impelido por um furacão. Em vão era ir atrás do corpo, os que tentavam socorrê-lo e detê-la temiam bater em alguma parede, o corpo seguia a reboque do impulso da agitada perna; se se esforçavam para prendê-la em alguma parte, corriam perigo dele perder um braço e quando as pessoas acudiam a seus gritos, o infeliz banqueiro havia desaparecido. Tal era a violência e rebeldia do membro postiço. E era o melhor, que se encontrava a alguns amigos que o chamavam e aconselhavam que parasse, o que era para ele o mesmo que tocar com a mão o céu.

- Um homem tão formal como você - gritava um – sair na rua com roupa íntima. Eh! Eh! E o homem maldizendo e jurando e acenando com a mão de que não podia absolutamente parar. Tomaram ele por louco, outros tentavam detê-lo pondo-se a frente e caiam atropelado pela furiosa perna, o que valia um descontentamento infeliz mil injúrias. O pobre chorava; no fim, desesperado e aborrecido lhe ocorreu a idéia de ir à casa do maldito fabricante de pernas que lhe havia posto.

Chegou, bateu à porta; mas já havia transposto a rua quando o mestre saiu para ver quem era. Só pôde ver de longe um homem arrebatado nas asas de um furacão, que com as mãos fazia um juramento. Na resolução, ao cair da tarde, o apressado varão notou que a perna, ao invés de afrouxar, aumentava a velocidade por instantes. Saiu a campo, e quase esgotado e ofegante, resolveu tomar o caminho que o levava a uma quinta de uma tia sua que ali vivia. Estava aquela respeitável senhora, com mais de setenta anos na parte de cima, tomando chá junto a janela do sítio e como viu seu sobrinho chegar tão sem graça correndo até ela, começou a suspeitar se havia perdido o juízo, e muito mais ao vê-lo tão desonestamente vestido. Ao passar o infeliz junto da suas janelas, o chamou e, muito séria começou a fazer uma advertência muito grave acerca de um homem de seu caráter andar daquela maneira.

- Tia! Tia! Até você! - Respondeu com lamentos o seu sobrinho perna ligeira. Desde então não voltou a vê-lo, e muitos acreditavam que havia se afogado no Canal da Mancha ao sair da ilha. Não obstante, faz alguns anos que alguns viajantes recém chegados da América afirmaram ter visto atravessar os bosques do Canadá com a rapidez de um relâmpago. E há pouco se viu um esqueleto desarmado vagando pelos picos dos Pirineus, com notável espanto dos moradores da comarca, sustentado por uma perna de pau.

E assim, continua dando volta ao mundo com incrível presteza, a prodigiosa perna, sem haver perdido inclusive, nada do seu primeiro arranque, furiosa velocidade e movimento perpétuo.

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