lunes, 28 de junio de 2010

O Perna de Pau

Vou contar o caso mais espantoso e prodigioso que de boa maneira podo-se imaginar, caso de ouriçar o cabelo e arrepiar as carnes, pasmar o ânimo e intimidar o coração mais intrépido, enquanto dure sua memória entre os homens e passe de geração em geração sua fama com a eterna desgraça do infeliz a quem coube tão mal e desventurada sorte.

Oh mancos! Aprenda com as pernas alheias e leia com atenção esta história, que tem tanto de certa como de lastimável; como vos falo, é melhor dizer com todos, pois que não há ninguém no mundo que não precise de pernas, que não a se encontre exposto a perdê-las.

A verdade é que em Londres vivia, não faz meio século, um comerciante e um artífice de pernas de pau, ambos famosos: o primeiro por suas riquezas e o segundo, por sua rara habilidade em seu ofício. E basta dizer que esta era inclusive de pernas mais ágeis e ligeiras invejava as que somente eram feitas de madeira, a ponto de que estivessem na moda as pernas de pau, com grave prejuízo das naturais.

Aconteceu que nesta época nosso comerciante perdeu uma de suas pernas, com a tal perfeição, que os cirurgiões não acharam outro remédio senão amputá-la, e inclusive a dor da operação que ele teve a ponto de morrer, logo que se encontrou sem a perna, no desejo de alegar-se pensando no artífice, que com a perna de pau iria livrá-lo para sempre de semelhante percalço.

No momento mandou chamar Mr.Wood (que era o nome do estupendo mestre perneiro). É como se costuma dizer não se continha com tanta ansiedade imaginando-se com sua perna consertada e prodigiosa, que inclusive ainda que o homem doente, gordo e com mais de quarenta anos, o desejo de experimentar em si mesmo a habilidade do artífice, se continha em si.

Não se fez esperar muito tempo, era comerciante rico e gozava de conceituado nome.

- Mr. Wood - infelizmente necessito da habilidade do senhor.

Minhas pernas – respondeu Wood – estão à disposição de quem queira se servir delas.

- Mil vezes obrigado; porém não são as pernas do senhor, senão uma de pau que preciso.

As desse tipo eu ofereço – respondeu o artífice – por que as minhas, além disso, são de carne e osso, não deixam de me fazer falta.

- Por certo é raro que um homem como o senhor que sabe fazer pernas perfeitamente use ainda as mesmas com que nasceu. Sobre isso há muito que se falar, porém vamos direto ao ponto; você precisa de uma perna de pau, não é isso?

- Perfeitamente – respondeu abastado o comerciante; porém não vá o senhor pensar que se trata uma coisa qualquer, senão que é necessário uma obra prima, um milagre da arte.

- Um milagre da arte! Eh! – repetiu Mr. Wood.

- Sim, senhor, uma perna maravilhosa, custe o que custar.

- Estou nesse ramo- uma perna que substitua em tudo que o senhor perdeu.

- Não senhor; todavia preciso que seja melhor.

- Muito bem.

- Que encaixe bem, que não pese nada, que não tenha que levá-la e sim que ela me leve.

- O senhor será atendido.

- Resumindo, quero uma perna..., vamos lá, já que estou para escolher uma prefiro uma perna de pau que ande sozinha.

- Como o senhor preferir...

- Portanto o senhor está ciente.

- Daqui a dois dias- respondeu o perneiro – o senhor terá sua perna em casa, e prometo ao senhor que ficara satisfeito. Dito isso se despediram, e o comerciante ficou entregou-se a mil agradáveis e lisonjeiras esperanças, pensando que dali a três dias se veria provido da melhor perna de pau que havia em todo reino unido da Grã Bretanha. Entretanto, nosso engenhoso artífice se ocupava na construção de sua máquina com tanto empenho e acerto, que dali a três dias, como havia oferecido, estava acabando sua obra, satisfeito sobre maneia de seu avançado engenho.

Era uma manhã de maio e começava a raiar o dia feliz em que haveria de cumpri-se as mágicas ilusões das pernas do comerciante, que jazia deitado na cama muito alheio a desventura que lhe aguardava, faltava tempo para encaixar a perna emprestada e cada batida que soava na porta de sua casa ressoava em seu coração. Será esse - dizia a si mesmo, porém que vejo, porque antes de sua perna, chegou a leiteira, o carteiro, o açougueiro, um amigo seu e outros mil personagens insignificantes crescendo por instantes a impaciência e ansiedade de nosso herói. Bem assim como alguém que espera um frac novo para ir ao encontro amoroso e tem o alfaiate mentiroso.

Porém o artífice cumpria melhor as suas palavras e oxalá; que não houvesse cumprido! Então!

Chamaram enfim na porta, e em pouco tempo entrou no quarto do comerciante um funcionário da loja com uma perna de pau na mão, que parecia que ia escapar.

-Graças a deus- exclamou o banqueiro – vejamos essa maravilha do mundo.

-Aqui tem senhor - falou o funcionário – e creia senhor que é a melhor perna que meu amo fez em sua vida.

-Agora veremos.


Tradutores: Aldaina Santos e Dalva Maria

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