martes, 29 de junio de 2010

La pata de palo

A perna de pau

Vou contar o caso mais espantoso e prodigioso que de boa vontade pode-se imaginar, caso de levantar os cabelos, arrepiar o corpo, desanimar e por corvarde o coração mais intrépido, enquanto dure sua memória entre os homens e passe de geração a geração a sua fama e a eterna desgraça do infeliz a quem coube tão mal e desventurada sorte.
Oh mancos! Lição com as pernas alheias e leia com atenção esta história, que tem tanto de certa como de lastimável; digo a vocês , é melhor dizer com todos, pois que não há ninguém no mundo que precise de pernas, que não a se encontre disposto a perdê-las.
Em Londres vivia, não faz meio século, um comerciante e um artífice de pernas de pau, ambos famosos: o primeiro por suas riquezas e o segundo, por sua rara habilidade em seu ofício. E basta dizer que este era o tal, que mesmo as pernas mais ágeis e ligeiras invejavam as que costumava fazer de madeira, a tal ponto de estarem na moda as pernas de pau, em prejuízo para as naturais. Nesta época nosso comerciante perdeu uma de suas pernas, com tamanha perfeição, que os cirurgiões não encontaram outro remédio a não ser corta-la, inclusive a dor da operação o levou perto de morrer, mas logo que se encontrou sem a perna, não deixou de se alegrar pensando no artífice, que com a perna de pau iria livrá-lo para sempre de semelhante percalço.
Não esperou muito tempo, era comerciante rico e gozava de prestigio.
-Mr. Wood - disse-lhe,- felizmente necessito da habilidade do senhor.
- Minhas pernas – respondeu Wood – estão à disposição de quem queira se servir delas.
- Muito obrigado. No entanto, não são das suas pernas que necessito, mas sim uma perna de pau.
- Desse gênero eu te ofereço – respondeu o artífice. As minhas, embora de carne e osso, não deixam de fazer falta.
- Por certo é raro que um homem como o senhor que sabe fazer pernas que não se tem do que reclamar, use todavia as mesmas do nascimento.
- Sobre isso há muito que se falar, porém vamos direto ao ponto; você precisa de uma perna de pau, não é isso?
- Perfeitamente – respondeu abastado o comerciante; porém não vá o senhor pensar que se trata uma coisa qualquer, é necessário uma obra prima, um milagre da arte.
- Um milagre da arte! Repetiu Sr. Wood.
- Sim, senhor, uma perna maravilhosa, custe o que custar.
- Assim farei; uma perna que substitua em tudo a que senhor perdeu.
- Não senhor; preciso que seja melhor.
- Muito bem.
- Que encaixe bem, que não pese nada, que não tenha que levá-la e sim que ela me leve.
- Serás servido.
- Em uma palavra, quero uma perna... já que estou escolhendo, que ande sozinha.
- Como você preferir.
- Assim farei como esperas.
- Daqui a dois dias- respondeu o perneiro – o senhor terá sua perna em casa, e prometo ao senhor que ficara satisfeito. Dito isso se despediram, e o comerciante ficou entregue a mil saborosas e lisonjeiras esperanças, pensando que dali a três dias se veria provido da melhor perna de pau que havia em todo Reino Unido da Grã Bretanha. Entretanto, nosso engenhoso artífice se ocupava na construção de sua máquina com tanto empenho e acerto, que dali a três dias, como havia oferecido, estava acabando sua obra, satisfeito sobremaneira de sua moderna invenção.
Era uma manhã de maio e começava a raiar o dia feliz em que haveria de cumpri-se as mágicas ilusões do comerciante perneta, que jazia deitado na cama muito alheio a desventura que lhe aguardavaa. Demorava demais para por a nova perna e cada batida que soava na porta de sua casa ressoava em seu coração. Será esse, dizia a si mesmo,porém vão porque antes de chegar sua perna chegaram a leiteira, o carteiro, o açougueiro, um amigo seu e outros mil personagens insignificantes crescendo a cada instante a impaciência e ansiedade de nosso herói, bem assim como aquele que espera um fraque novo para ir ao encontro amoroso e tem o alfaiate mentiroso.Porém o artífice cumpria suas palavras e oxalá; que não as tivesse cumprido ora pois!
Chamaram enfim na porta, e em pouco tempo entrou no quarto do comerciante um funcionário da loja com uma perna de pau na mão, que parecia querer escapar.
-Graças a deus- exclamou o banqueiro – vejamos essa maravilha do mundo.
-Aqui tem senhor - falou o funcionário – e creia senhor que é a melhor perna que meu amo fez em sua vida.
-Agora veremos.

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